se lembra quando éramos crianças e ainda fotografávamos com as câmeras analógicas?

Duas observações importantes sobre o que acontecia nessa época: a primeira é que por saber que tínhamos uma quantidade limitada de fotos, não saímos fotografando tudo que víamos e 50 fotos de uma pose só até que ficasse perfeita. Era um “shoot” e nada mais.
Com isso, prestávamos muito mais atenção ao redor, observávamos mais antes de clicar, tínhamos que ter certeza pra apertar o botão.
Eu sei, hoje em dia não corremos mais o risco de perder o momento, temos infinitas chances pra fotografar ou filmar. Mas o risco que corremos é outro… a pressa, a falta de atenção e de paciência. Não sabemos mais estar atentos. Vivemos a vida pelas telas, não ao vivo. Virou vício registrar.
Temos tanto medo de esquecer, que não vivemos o presente? Nem faz sentido. Vale mais a pena guardar aquela memória que provavelmente ficará perdida dentro da galeria do celular, ou guarda-la na memória interna e no coração?!
A segunda observação é: como já sabemos, tínhamos que esperar semanas pra revelação do filme acontecer e só depois termos acesso às fotos. Bizarro pensar nessa realidade hj né? Quando foi que perdemos a capacidade de esperar? De repente, acordamos em 2026 e tudo está diferente, não é nosso culpa se viramos zumbis e não conseguimos mais ficar um dia (pode-se ler minutos) sem estímulos à prazeres instantâneos, não é mesmo?
Não. Temos sim uma parcela de culpa nisso. Ainda é tempo de resgatar a noção de viver mais consciente, mais presente, sem se render aos vícios que nos cercam o tempo todo, como monstros de dopamina.
É possível voltar umas casas e recordar de como era a vida antes de tudo isso (mesmo que você não estava ainda no planeta) e encontrar um equilíbrio seguro na realidade em que estamos inseridos.
Não precisamos esperar mais semanas pra revelação do filme e nem temos fotos limitadas pra usar. Mas podemos prestar mais atenção ao nosso redor. Podemos pensar antes de clicar. Viver, antes de registrar. Podemos aceitar mais a verdade sem o desespero da perfeição dos filtros.
Um bom fotógrafo sabe o momento exato de clicar, mas tmb sabe quando é hora de abaixar a câmera e só observar.
